CRISE NA SAÚDE: FALTA DE ESTRUTURA EM UPA DE TRÊS LAGOAS RESULTA EM AGRESSÃO A ENFERMEIRO
Unidade, que não possui ala psiquiátrica ou equipe especializada, tornou-se palco de um "atentado anunciado" contra profissionais da linha de frente.
26/03/2026
Nilson Lobão/Três Lagoas (MS)
O que era para ser um plantão de cuidado transformou-se em cena de violência e medo na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Três Lagoas nesta semana. Um enfermeiro foi agredido fisicamente por um paciente psiquiátrico de 25 anos, evidenciando uma falha crônica na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do município: a falta de suporte para casos de saúde mental em unidades de urgência clínica.
O profissional sofreu lesões no pescoço e no tórax, além de ter o uniforme rasgado, enquanto tentava administrar uma medicação de contenção prescrita após o paciente apresentar intensa agitação psicomotora.
UM CICLO DE IDAS E VINDAS
O caso não foi um evento isolado. Segundo relatos da própria equipe, o jovem — que possui deficiência intelectual e transtorno comportamental desde a infância — já havia passado pela unidade diversas vezes nos últimos dias, levado pelo SAMU e pelo Corpo de Bombeiros após episódios de agressividade em sua residência.
Sem vagas em hospitais especializados ou suporte intensivo nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), a UPA acaba retendo esses pacientes em condições inadequadas:
- Sem ambiente seguro: Ausência de salas sem objetos perfurantes ou móveis soltos.
- Sem equipe específica: Profissionais de enfermagem geral precisam lidar com surtos sem treinamento em contenção psiquiátrica humanizada.
- Déficit de pessoal: A sobrecarga dificulta a observação constante necessária para esses quadros.
“O PROBLEMA É O SISTEMA”
A revolta entre os servidores é palpável. Um funcionário, que preferiu não se identificar, desabafou sobre a situação:
“O problema não é o paciente. O problema é o sistema que não oferece estrutura adequada. Quem paga essa conta são os profissionais que ficam expostos.”
A crítica central reside no fato de que a UPA não foi projetada para internações prolongadas de cunho psiquiátrico. No entanto, por falta de fluxo na rede municipal, pacientes permanecem no local por horas ou dias, aumentando a pressão sobre uma equipe já exaurida.
SILÊNCIO INSTITUCIONAL
Até o fechamento desta matéria, a Secretaria Municipal de Saúde não apresentou um plano concreto para a criação de protocolos de segurança ou para a destinação de equipes especializadas em saúde mental para as unidades de pronto atendimento.
O episódio levanta um questionamento urgente para a gestão pública: até quando profissionais da linha de frente serão obrigados a suprir, com a própria integridade física, as lacunas de um planejamento de saúde mental inexistente?